Vidinha, pensa bem, tu tem cinquenta e eu vinte e cinco. Tu diz que é o espírito que conta. Eu compreendo Vidinha, mas tô me mandando. Não deprime. A gente se cruza, tá?
Vidinha, pensa bem, tu tem cinquenta e eu vinte e cinco. Tu diz que é o espírito que conta. Eu compreendo Vidinha, mas tô me mandando. Não deprime. A gente se cruza, tá?
Me estender ao teu lado, ordenarme, dizer que à noite sou teu é mentira (...)
(...) vejo passar agigantados sentimentos, excesso ciúme impotência, miséria de ser, quem foi Hillé se nunca foi um nome? Hillé doença, obsessão (...)
Peço que se deite a meu lado. Digo-lhe doce: abre as pernas. Minha mão nodosa contrasta com a sua carne de leite, seu esplendor de fêmea nova e de melindres, tão cortesia Eulália nos inícios da foda (...) Sorrimos os dois e monto-a na praia vazia, nos meus vazios, nos meus medos.
E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos, azuis, brancos e amarelos hão de gritar: morte aos poetas! Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados de infância, o plexo aberto, exposto aos lobos.
Fui pássaro e onça, criança e mulher.
E se quiseres posso ser convento e calar o meu verso, alimentar meu tempo de corredores vazios e rosários.
E se te lembras do brilho das marés, de alguns peixes rosados numas águas e dos meus pés molhados, manda-me dizer: — É lua nova — e revestida de luz te volto a ver.
E chamas de amor, Rute, o estar na mesma casa, comer na mesma mesa, e a consciência nada comprometida na mesma direção?
Aflição de ser água em meio à terra e ter a face conturbada e móvel.
Diante da vila, das casas quase coladas, entre as gentes sou como uma grande porca acinzentada, diante de muitos a quem conheci sou uma pequena porca ruiva, perguntante, rodeando mesas e cantos, focinhando carne e ossatura, tentando chegar perto do macio, do esconso (...)
(...) A pintora pintava e alguém-outro lhe lambia (...) Élisabeth dizia: demore-se mais um pouco, senhor, não a faça gozar, a luz vem vindo rosada lá de fora e esta luz sobre este olhar é tudo o que eu preciso, pare um instante apenas (...)
Um coração minúsculo tentando escapar de si mesmo, dilatando-se à procura de puro entendimento (...)
Quis esconder os meus dedos nos teus cabelos de mágoa mas a tua mágoa era grande para fugir no meu gesto.
Perguntou-me de chofre, ao anoitecer, diante do meu primeiro uísque (aprendi que qualquer bebida é menos fatal se se começa a beber a partir das 6 da tarde) se eu conhecia Chesterton (...) eu que deixei de pensar para continuar a viver me vejo diante de alguém que leu Chesterton.
Ser extensão do mar na tua viagem.
Não pareces contente, falas no tom que falamos quando somos culpadas (...) Um olhar de lua atravessado de nuvens, um mais no fundo que eu não sabia, escuro de matagais, aparição pontuda, ouriço antes de ser mordido e um segundo antes de expelir espinhos amarelos.
E é difícil acabar com uma coisa pela qual se vive.
Não sabem que o amor não é amor e a natureza é um mito.
As coisas não existem. A ideia, sim. A ideia é infinita igual ao sonho das crianças.
(...) o que é paixão? o que é sombra? eu mesmo te pergunto e eu mesmo te respondo: Hillé, paixão é a grossa artéria jorrando volúpia e ilusão (...) paixão é esse aberto do teu peito, e também teu deserto. E sombra, Hillé, é nosso passo, nossa desesperançada subida.
Por que, pergunto, estando viva devo eu morrer? Por que, se és morte, deves me perseguir? Aquieta-te, afunda-te, morre, pequenina, escuramente dentro do meu sofrer.
(...) Porque para mim todo mundo é gente, o rato também é gente, ele tem medo frio fome, e também se alegra e fica triste como a gente. Um rato não tem muito mistério não, as pessoas não entendem que ser rato é tão simples e tão complicado como ser gente.
Você tem um revólver? Uma faca? Um veneno? Tenho a mim mesma de coração exposto, eu mesma sou uma agressão (...)
Vi palavras e números, círculos, tangentes, extensos teoremas nas costas esguias de um andarilho de sóis do meio-dia.
Me mataria em março se não fosse a saudade de ti e a incerteza de descanso.
Minha pobreza é a secura do espírito.
Se fosse profundo, nítido, conclusivo esse teu estar aí, estarias contente de tua própria solidão, altiva é que te sentirias de estar longe da caterva, do lixo da civilização, da cloaca do progresso (...) e segundo revelas, estás roída por dentro, vazia, ansiosa (...)
Te pensas magnífico dizendo as tuas verdades, mas continuas breu para o teu próximo, e todo o teu caminho terá um só destino, a morte, ela sim é grandiloquente, ela é rainha, chega a qualquer hora.
Cansa-me ser assim quem sou agora: planície, monte, treva, transparência.